sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Tiago Sousa:

Tiago Sousa

Tiago Sousa lançou hoje o seu novo álbum, “Sustained Tones, Vol. 1”. A palavra “lançou” e o tempo verbal usado não têm o sentido habitual. Pretende-se sublinhar que este lançamento não ficou para trás: continua. Não se esgota no momento em que o disco se revela. É um disco que não pousa e nos leva consigo.

O álbum é composto por seis temas e abre com “Ready Reliance”, que nos enquadra de imediato para a viagem. São 15 minutos que, a espaços, se insinuam como futuristas — mas a partir do passado, como se a memória fosse o motor do que vem à frente. O lado hipnótico do tema faz com que o tempo pareça alterar a sua direcção. E, já perto do fim, há uma viragem: os últimos três minutos agitam-se, como se o tempo se tivesse partido em pedaços e esses fragmentos colidissem sem cessar, à procura de voltarem a ser um só. Um final que antecipa uma reconfiguração — uma espécie de “intermission”, mas no lugar menos esperado: no final.

Segue-se “Flickers”, que abre o espaço que tinha sido agitado pelo tema anterior e o deixa a pairar, como o título do disco nos tinha prometido. Se isto fosse cinema, seria um plano de deslocação: um movimento que não resolve, apenas transporta. Ficamos à espera.

Depois, pairam dois temas mais melódicos em que o piano assume o papel principal — duas músicas que, embora gestos diferentes, fazem sequência. “Smooth Flow Into It” marca o ritmo de quem nos convida a apreciar a viagem e, quando olhamos mais longe, avistamos o magnífico “Swirling Mist and Thin Dust”, onde essa energia se adensa e se transforma, sem nunca perder a leveza de quem continua em voo — como se a vontade de chegar, em vez de apressar, abrandasse: para haver mais tempo, e mais lugar, para apreciar.

“Restlessness” traz-nos de volta ao lado mais etéreo e cumpre o papel oposto de “Flickers”: em vez de abrir, aperta. Em vez de suspender, tensiona. E é nessa inversão — nesse regresso pelo mesmo corredor, agora com outra luz — que chegamos a “Becoming a Landscape”, o tema de 10 minutos que fecha o álbum e devolve espaço ao espaço: lugares por onde podemos circular, respirar e voltar a encontrar tranquilidade.

“Sustained Tones, Vol. 1” não é um disco para ouvir por distração, nem para ficar a tocar como simples acompanhamento. E talvez seja precisamente por isso que funciona tão bem: aqui, não é o álbum que nos acompanha — somos nós que o acompanhamos. Podemos viajar com ele e, se tivermos sorte, acabamos por flutuar também: suspensos, sem nunca ter de pousar.


PS: O Tiago apresentou o disco ontem, na Igreja do Senhor da Cruz, em Barcelos, no ciclo de concertos triciclo. Foi um evento de entrada livre, mas de grande valor. Num mundo em que o que ouvimos, vemos e consumimos está cada vez mais igual, é curioso como nos convencemos de que somos tão diferentes. E no essencial, muitas vezes, é ao contrário. Faz falta mais diversidade — para que a diferença nos abra espaço por dentro e, só depois, nos devolva ao mesmo lugar: esse onde, no que conta, somos todos muito parecidos.

Parabéns a todos os envolvidos.

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