Unisex Music
Música hipotética utilizada como modelo de qualidade.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
Unisex Music: February 2026
A small compilation of mostly calm, reflective, and wistful songs. The image shows the Santuário do Sagrado Coração de Jesus in Viana do Castelo.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Tiago Sousa:
Tiago Sousa lançou hoje o seu novo álbum, “Sustained Tones, Vol. 1”. A palavra “lançou” e o tempo verbal usado não têm o sentido habitual. Pretende-se sublinhar que este lançamento não ficou para trás: continua. Não se esgota no momento em que o disco se revela. É um disco que não pousa e nos leva consigo.
O álbum é composto por seis temas e abre com “Ready Reliance”, que nos enquadra de imediato para a viagem. São 15 minutos que, a espaços, se insinuam como futuristas — mas a partir do passado, como se a memória fosse o motor do que vem à frente. O lado hipnótico do tema faz com que o tempo pareça alterar a sua direcção. E, já perto do fim, há uma viragem: os últimos três minutos agitam-se, como se o tempo se tivesse partido em pedaços e esses fragmentos colidissem sem cessar, à procura de voltarem a ser um só. Um final que antecipa uma reconfiguração — uma espécie de “intermission”, mas no lugar menos esperado: no final.
Segue-se “Flickers”, que abre o espaço que tinha sido agitado pelo tema anterior e o deixa a pairar, como o título do disco nos tinha prometido. Se isto fosse cinema, seria um plano de deslocação: um movimento que não resolve, apenas transporta. Ficamos à espera.
Depois, pairam dois temas mais melódicos em que o piano assume o papel principal — duas músicas que, embora gestos diferentes, fazem sequência. “Smooth Flow Into It” marca o ritmo de quem nos convida a apreciar a viagem e, quando olhamos mais longe, avistamos o magnífico “Swirling Mist and Thin Dust”, onde essa energia se adensa e se transforma, sem nunca perder a leveza de quem continua em voo — como se a vontade de chegar, em vez de apressar, abrandasse: para haver mais tempo, e mais lugar, para apreciar.
“Restlessness” traz-nos de volta ao lado mais etéreo e cumpre o papel oposto de “Flickers”: em vez de abrir, aperta. Em vez de suspender, tensiona. E é nessa inversão — nesse regresso pelo mesmo corredor, agora com outra luz — que chegamos a “Becoming a Landscape”, o tema de 10 minutos que fecha o álbum e devolve espaço ao espaço: lugares por onde podemos circular, respirar e voltar a encontrar tranquilidade.
“Sustained Tones, Vol. 1” não é um disco para ouvir por distração, nem para ficar a tocar como simples acompanhamento. E talvez seja precisamente por isso que funciona tão bem: aqui, não é o álbum que nos acompanha — somos nós que o acompanhamos. Podemos viajar com ele e, se tivermos sorte, acabamos por flutuar também: suspensos, sem nunca ter de pousar.
PS: O Tiago apresentou o disco ontem, na Igreja do Senhor da Cruz, em Barcelos, no ciclo de concertos triciclo. Foi um evento de entrada livre, mas de grande valor. Num mundo em que o que ouvimos, vemos e consumimos está cada vez mais igual, é curioso como nos convencemos de que somos tão diferentes. E no essencial, muitas vezes, é ao contrário. Faz falta mais diversidade — para que a diferença nos abra espaço por dentro e, só depois, nos devolva ao mesmo lugar: esse onde, no que conta, somos todos muito parecidos.
Parabéns a todos os envolvidos.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Unisex Music: January 2026
A tiny compilation of mostly calm, reflective, and wistful songs. The image shows a Jewish cemetery in Prague (Czechia).
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Daniel Knox: Mercado 48 (Album)
Daniel Knox lançou hoje o seu álbum "Mercado 48". Entrar na música do Daniel é atravessar o equivalente sonoro do filme da nossa vida. Não o filme que gostaríamos que fosse, mas o filme tal como é: sem maquilhagem, sem suavizar arestas, contado com uma honestidade que às vezes dói. Com luz e sombra, mas acima de tudo, com emoção.
O álbum foi gravado na loja Mercado 48 — um espaço que desafia classificações, a meio caminho entre a arte e o que ainda não sabemos nomear, entre o lugar físico e um lugar de amizade. Um sítio improvável para gravar um disco e, precisamente por isso, o melhor sítio para o gravar.
Já conhecíamos dois magníficos singles, "Don’t Fucking Move" e "Alligator", mas é no corpo do disco que tudo ganha outra profundidade. É um álbum que pede para ser ouvido num ambiente mais escuro, porque a luz, às vezes, atrapalha o que sentimos. No tema de abertura, "Worst of All Worlds", mesmo que a luz já esteja baixa, Daniel não se inibe de invadir o nosso espaço, baixando-a ainda mais. Fica apenas a luz suficiente para que vejamos as notas a entrarem-nos pela pele.
Ao longo do disco, sem sairmos do lugar, o nosso espírito começa a vaguear, numa espécie de dança que, erraticamente, se afasta de nós. Nesse movimento, ficamos sem perceber muito bem de onde estamos a olhar o mundo: se de onde estamos, se de onde gostaríamos de estar, ou de onde estivemos.
Quando começamos a perceber para onde vamos, "Scratch the Itch" embala-nos sem pressa. Quando esse movimento estabiliza e começamos a duvidar quanto tempo pode durar uma dança, surgem temas como "Finders Takers", que nos devolvem a sensação de que ainda podemos recuperar as partes de nós que fomos perdendo pelo caminho. Mas, ao chegar a "Guess Not", percebemos que, independentemente de existirem várias formas de contar uma história — e nenhuma delas ser, verdadeiramente, a certa — a perda continua a ser a mesma.
Daniel canta como quem acompanha uma história. Iludimo-nos de que acompanha a nossa, mas só até admitirmos que, muitas vezes, somos os mais estranhos dentro dela. E mesmo não sendo sobre nós, na música, a beleza e o sentido nunca pertencem apenas a quem semeia — pertencem a quem sente.
E é por isso que "Mercado 48" é um disco profundamente humano. Porque não tenta ser perfeito, não tenta esconder nada. Ao mostrar-se assim, cru e verdadeiro, alcança aquilo que poucos discos conseguem: a estranha perfeição de reconhecer a imperfeição que nos acompanha. E, provavelmente por isso, fica tão perto quanto se pode ficar da perfeição.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Unisex Music: December 2025
A small compilation of mostly calm, reflective and wistful songs. In the image is my late father, who recently passed away. I was truly blessed. I had the best father I could have ever wished for.
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Jimmy Cliff: Reggae Night
Faleceu hoje Jimmy Cliff. Lembro-me de ouvir, à exaustão, este tema que tinha numa K7. Saudades dos tempos em que, com menos, parecia tinhamos mais.
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Unisex Music: November 2025
A compilation of mostly calm, reflective, and wistful songs. The image shows "Compianto sul Cristo Morto", an expressive terracotta group by Niccolò dell’Arca in the Church of Santa Maria della Vita, Bologna.
domingo, 12 de outubro de 2025
Lubomy Melnyk: Barcarolle
Lubomyr Melnyk é um dos grande nomes incontornáveis da minha vida. A sua música tem acompanhado o meu crescimento e envelhecimento. Tem um impacto em mim que mais nenhuma música tem. Sinto uma espécie de calma que é estranha ao meu corpo. Estranha porque, para mim, a calma é um destino e nunca um estado. Digo muitas vezes que, quando morrer, se for para algum lado, será a sua música que quero que acompanhe a minha viagem.